O que a Bíblia diz sobre o “livre-arbítrio”: A complexidade da escolha e a soberania divina
A questão do livre-arbítrio é, talvez, o mais antigo e profundo debate teológico e filosófico. A ideia de que temos a liberdade de fazer escolhas reais e significativas parece essencial para a nossa experiência humana, mas a Bíblia
Por outro lado, apresenta um Deus completamente soberano que governa sobre todas as coisas e tem um plano eterno que não podemos frustrar. Como essas duas verdades se conciliam?
Este artigo explora a visão do livre-arbítrio na Bíblia, aprofundando-se nos argumentos, versículos e nas grandes correntes teológicas que tentam resolver essa tensão.
1. O que é livre-arbítrio na Bíblia?
Para entender o conceito bíblico, primeiro precisamos compreender o termo. A Bíblia não usa a expressão “livre-arbítrio”, mas o conceito está em toda parte. Ele se refere à capacidade humana de tomar decisões morais e espirituais genuínas, sem a força ou a predeterminação de Deus. Essa liberdade de escolha fundamenta toda a responsabilidade humana.
A Bíblia está cheia de ordens, exortações e avisos que, por si só, pressupõem a capacidade de escolha. Se o homem não fosse livre para decidir, por que Deus se daria ao trabalho de lhe dar mandamentos?
Evidência Bíblica da Escolha Humana
- Deuteronômio 30:19 é um dos versículos mais claros sobre o assunto. Moisés, ao final da vida, diz ao povo de Israel: “Hoje, tomo os céus e a terra como testemunhas contra vocês. Eu lhes dou a escolher vida ou morte, bênção ou maldição. Escolham a vida, para que vocês e os seus descendentes vivam.” A palavra “escolham” é um imperativo direto, que atribui a responsabilidade da decisão ao povo. Não há aqui qualquer indicação de que a escolha deles já estava predeterminada.
- No Gênesis, vemos o primeiro exemplo de escolha. A ordem de Deus a Adão para não comer do fruto da árvore do conhecimento do bem e do mal (Gênesis 2:16-17) não faria sentido se Adão não pudesse ter feito outra escolha. O pecado original resultou de uma decisão genuína, e por isso a humanidade se tornou culpada e precisa de redenção.
- Jesus, em Mateus 23:37, lamenta a rejeição de Jerusalém: “Ó Jerusalém, Jerusalém, que mata os profetas e apedreja os que lhe são enviados! Quantas vezes eu quis reunir os seus filhos, como a galinha ajunta os seus pintinhos debaixo das asas, mas vocês não quiseram!” A frase “vocês não quiseram” aponta diretamente para a escolha que a cidade fez de rejeitar a vontade de Deus.
- Em Apocalipse 3:20, Jesus se dirige à igreja em Laodiceia e diz: “Eis que estou à porta e bato; se alguém ouvir a minha voz e abrir a porta, entrarei até ele e com ele cearei, e ele comigo.” O convite é universal e a resposta, a abertura da porta, é uma escolha humana.
Esses e muitos outros versículos formam a base da crença de que os seres humanos são agentes morais livres, capazes de tomar decisões significativas que afetam sua vida e seu destino eterno.
2. O Trilema de Epicuro: O Mal e a Liberdade
O livre-arbítrio na filosofia levanta uma questão central, notavelmente articulada no trilema de Epicuro:
- Se Deus é onipotente (pode tudo) e onibenevolente (é totalmente bom), por que o mal existe no mundo?
A resposta para essa questão, muitas vezes, é encontrada na própria noção de liberdade. O mal não é uma falha de Deus, mas uma consequência do livre-arbítrio que Ele concedeu à humanidade. Deus, em Sua bondade, deu ao homem a liberdade de escolher, mesmo que isso incluísse a possibilidade de escolher o mal.
A liberdade é um bem tão grande que sua existência justifica o risco do seu mau uso. A capacidade de amar, a maior das virtudes, só se torna possível quando há a liberdade de não amar.
Livre-arbítrio Santo Agostinho
O influente teólogo Santo Agostinho de Hipona, em sua obra “O Livre-Arbítrio”, explorou essa questão profundamente. Ele argumentou que o livre-arbítrio é um dom de Deus, um bem que o homem pode usar de forma correta ou incorreta.
O mal, portanto, não vem de Deus, mas do mau uso dessa liberdade humana. Uma escolha da vontade humana causou a queda do homem, segundo Agostinho, e não uma falha na criação.
Contudo, Agostinho também ensinou que o pecado original corrompeu a vontade humana, tornando-a incapaz de fazer o bem por si mesma. A verdadeira liberdade, para Agostinho, é a capacidade de não pecar, algo que o homem só pode ter através da graça divina.
3. A Visão Calvinista: Predestinação e a Vontade de Deus
Apesar da abundância de versículos que parecem apoiar o livre-arbítrio, outras partes da Bíblia enfatizam a soberania absoluta de Deus. Essa perspectiva, que as pessoas conhecem como calvinismo, interpreta a salvação como um ato unilateral de Deus, sem a cooperação da vontade humana.
- Efésios 1:4-5: “Porque Deus nos escolheu nele antes da criação do mundo, para sermos santos e irrepreensíveis em sua presença. Em amor nos predestinou para sermos adotados como filhos, por meio de Jesus Cristo, conforme o bom propósito da sua vontade.”
- Romanos 9:16: “Portanto, isso não depende do desejo ou do esforço humano, mas da misericórdia de Deus.”
- João 6:44: “Ninguém pode vir a mim, a não ser que o Pai, que me enviou, o atraia; e eu o ressuscitarei no último dia.”
Essa visão, que se foca em uma interpretação literal dessas passagens, argumenta que o homem, em seu estado de pecado, está espiritualmente morto (Efésios 2:1) e, portanto, é incapaz de escolher a Deus. O pecado escraviza totalmente a vontade humana.
A salvação, nesse sentido, não é uma parceria entre Deus e o homem, mas uma intervenção soberana e graciosa de Deus, que regenera o coração do pecador, capacitando-o a crer. A visão calvinista não nega que os seres humanos tomam decisões, mas argumenta que eles sempre fazem essas decisões de acordo com a sua natureza. A escolha de um pecador não regenerado é sempre para o mal, a menos que a graça de Deus o capacite para o bem.
4. A Visão Arminiana: Graça Preveniente e Escolha Humana
Em contraste direto com o calvinismo, a teologia arminiana defende que Deus oferece a salvação a todos, e que o homem tem a capacidade, através de uma “graça preveniente”, de responder ou rejeitar esse convite.
- João 3:16: “Porque Deus amou o mundo de tal maneira que deu o seu Filho unigênito, para que todo aquele que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna.” A palavra “todo” indica que o convite é para todos, e não apenas para um grupo seleto.
- 1 Timóteo 2:4: Deus “quer que todos os homens se salvem e cheguem ao conhecimento da verdade.” Os arminianos usam esse versículo para mostrar o desejo universal de Deus pela salvação da humanidade.
- Apocalipse 22:17: “E o Espírito e a noiva dizem: ‘Vem!’. E quem ouve, diga: ‘Vem!’. E quem tem sede, venha; e quem quiser, tome de graça da água da vida.”
A visão arminiana argumenta que Deus, em Sua soberania, concedeu aos homens a capacidade de resistir ao Espírito Santo (Atos 7:51), algo que seria impossível se a salvação fosse totalmente determinada por Ele.
5. A Solução para o Paradoxo: Uma Coexistência Misteriosa
A Bíblia não oferece uma resposta simples ou uma fórmula para resolver a tensão entre o livre-arbítrio na Bíblia e a soberania de Deus. Em vez disso, ela nos apresenta ambas as verdades como realidades coexistentes.
A onisciência de Deus não anula a liberdade humana; Ele sabe o que você vai escolher, mas o ato de escolha é seu. O plano de Deus inclui as escolhas humanas, tanto as boas quanto as más. Ele consegue usar até mesmo o mal para o bem, como foi o caso da traição de Judas Iscariotes, que foi predita (Atos 1:16), mas pela qual Deus considerou Judas moralmente responsável.
Livre-arbítrio ou livre-arbítrio? O uso do hífen é uma questão gramatical, mas a essência do conceito permanece: a capacidade de decidir. A visão de que a escolha é real é central para a responsabilidade e a moralidade.
6. Conclusão: Livre-Arbítrio Resumo
O debate entre livre-arbítrio e soberania de Deus é um dos mais ricos da teologia cristã. Em vez de escolher um lado e rejeitar o outro, a abordagem mais bíblica é aceitar o paradoxo. Deus é soberano sobre todas as coisas, mas Ele deu aos humanos a capacidade de fazer escolhas reais.
As advertências, os mandamentos e os convites de Jesus fazem sentido precisamente porque a escolha é genuína. Em última análise, a liberdade existe e é um dom de Deus, que nos permite responder ao Seu amor com fé e obediência.
Essa é a essência do livre-arbítrio na Bíblia—uma liberdade que nos torna moralmente responsáveis e, por fim, nos permite encontrar a salvação através da graça.