O Fenômeno dos Desigrejados: Uma Análise Sociológica e Teológica da Fé Pós-Institucional no Brasil
O que são Desigrejados?
“Desigrejados” são cristãos, majoritariamente evangélicos no Brasil, que ativamente mantêm sua fé em Jesus e na Bíblia, mas optam por não pertencer a nenhuma igreja institucional. O fenômeno cresce devido a profundas decepções com lideranças, escândalos e abusos de poder. Eles praticam sua fé de forma autônoma, usando a tecnologia ou se reunindo em pequenos grupos informais.
Seção 1: Definição, Contornos e Caracterização do Fenômeno “Desigrejado”
1.1. Delimitação Conceitual: A Tensão entre “Crer sem Pertencer”
O termo “desigrejado”, que é também referido em estudos teológicos como churchless (sem igreja), designa um fenômeno sociorreligioso crescente, particularly no contexto do protestantismo e evangelicalismo brasileiro. De fato, na sua essência, o conceito descreve indivíduos que mantêm uma identificação com a fé cristã, mas que, por decisão consciente, optam por não manter qualquer vínculo de afiliação, filiação ou participação regular em uma igreja institucionalizada.
Esta distinção é, sem dúvida, fundamental: os desigrejados não representam um movimento de rejeição à fé, a Jesus Cristo ou aos preceitos centrais da Bíblia. Pelo contrário, a sua dissidência é especificamente direcionada às estruturas eclesiásticas, às hierarquias formais, às liturgias e, adicionalmente, às práticas administrativas das denominações tradicionais.
Um estudo antropológico sobre o fenômeno em Manaus, Amazonas, por exemplo, define o perfil do desigrejado através de duas características centrais: primeiro, um “engajamento contínuo quanto à fé evangélica” e, em segundo lugar, uma “forte oposição à denominação e instituição evangélica”.
O estudo nota que estes indivíduos “rejeitam a ideia ontológica de estarem associados a uma instituição ou denominação religiosa”. Desta forma, ser “desigrejado” transcendeu um estado de mera transição ou ausência (um vácuo eclesiástico) para se tornar, consequentemente, uma plataforma de expressão cultural e uma autoidentificação afirmativa. Trata-se, portanto, da emergência de uma identidade evangélica alternativa, que se define pela sua autonomia institucional.

1.2. Distinções Cruciais: Desigrejados, “Sem Religião” (Nones) e “Trânsito Religioso”
Para uma análise sociológica rigorosa, é, antes de tudo, imperativo diferenciar o fenômeno dos desigrejados de outros dois grupos que marcam o cenário religioso contemporâneo, a saber: os “sem religião” (ou nones) e os praticantes do “trânsito religioso”.
Os “sem religião”, categoria que, aliás, cresceu de 7,3% em 2000 para 8,0% em 2010 e, posteriormente, atingiu 9,3% da população brasileira em 2022 , são aqueles que, ao responderem ao censo demográfico, declaram não possuir nenhuma afiliação religiosa. Evidentemente, este grupo é internamente diverso, incluindo ateus, agnósticos e indivíduos com crenças difusas ou uma fé não estruturada. O desigrejado, em contraste, possui uma fé específica e autoidentificada (majoritariamente cristã evangélica), mas, no entanto, a pratica fora de uma instituição.
Sociólogos e pesquisadores, nesse ínterim, levantam a hipótese de que as categorias censitárias atuais não capturam adequadamente o fenômeno. O Censo de 2010, por exemplo, registrou mais de 9 milhões de brasileiros na categoria “evangélica não determinada”. Este grupo, juntamente com os “evangélicos sem vínculo” (21,8% de todos os evangélicos na época) , é considerado, por conseguinte, um indicador provável da dimensão do movimento desigrejado.
Paralelamente, o “trânsito religioso” descreve um comportamento diferente. O indivíduo em trânsito, que é comum no neopentecostalismo, não rejeita o sistema institucional; pelo contrário, ele consome múltiplas instituições de forma fluida e simultânea. Assim, ele pode frequentar a Igreja Universal, a Internacional da Graça e a Mundial do Poder de Deus, sem um vínculo fixo ou exclusivo, buscando a oferta religiosa que melhor se adapta às suas necessidades momentâneas. O desigrejado, por outro lado, rompeu com o sistema de vínculo institucional em si.
Tabela 1: Matriz de Diferenciação Conceitual no Cenário Religioso Brasileiro
| Perfil | Crença em Cristo | Vínculo Institucional | Prática Religiosa | Autoidentificação |
|---|---|---|---|---|
| Evangélico Institucional | Sim | Forte e Exclusivo | Comunitária e Regular (Templo) | “Sou Batista”, “Sou da Assembleia de Deus” |
| Desigrejado | Sim | Rejeitado (Nenhum) | Individual e Seletiva (Digital, Lares) | “Sou cristão”, “Sou evangélico sem igreja” |
| Em Trânsito Religioso | Sim | Fluido e Múltiplo | Consumo de múltiplas instituições | “Eu frequento” (várias) |
| Sem Religião (None) | Não / Indefinido | Nenhum | Nenhuma / Pessoal não estruturada | “Não tenho religião”, “Ateu”, “Agnóstico” |
1.3. O Desigrejado como Fenômeno Social Religioso
Embora os desigrejados não constituam um grupo homogêneo ou um movimento formalmente organizado , eles representam, ainda assim, uma tendência social e um “fenômeno religioso” factual e crescente.
Com efeito, a coesão e a articulação deste grupo são significativamente facilitadas pelas plataformas digitais. A internet e as redes sociais, por exemplo, fornecem a infraestrutura para que os desigrejados debatam suas posições teológicas, defendam apologeticamente sua autonomia e, além disso, se mobilizem em torno de líderes midiáticos que dão voz ao seu descontentamento.

Seção 2: A Gênese do Descontentamento: Fatores Causais do Êxodo Institucional
Certamente, a emergência do fenômeno desigrejado não pode ser atribuída a uma única causa, mas sim a uma complexa interação de fatores endógenos (isto é, crises internas às igrejas) e exógenos (ou seja, o contexto sociocultural mais amplo).
2.1. Fatores Endógenos (A Crise Institucional)
De fato, a principal força motriz do desigrejamento é uma profunda decepção com a igreja como instituição. Muitos desigrejados são, na verdade, ex-membros profundamente engajados que, no entanto, se sentiram feridos ou traídos pela estrutura que antes defendiam.
As causas internas mais citadas incluem, por exemplo:
- Crise de Liderança e Autoridade: Primeiramente, este é o fator predominante. Relatos de abusos de poder por parte de lideranças , escândalos morais e financeiros , e, além disso, a percepção de uma dissonância fundamental entre o discurso (a pregação) e a prática (a conduta) dos líderes. Muitos se sentiram “sufocados” pela “predileção institucional” dos líderes, que, por sua vez, pareciam mais preocupados em proteger a organização do que em pastorear as pessoas. Críticas também são direcionadas à consagração de líderes despreparados, que “impõem as mãos precipitadamente” , resultando, assim, em danos ao rebanho.
- Rejeição Doutrinária e Prática: Em segundo lugar, há uma forte repulsa a práticas percebidas como legalistas e a um foco excessivo em contribuições financeiras, como o dízimo e as ofertas, vistas como doutrinas antibíblicas por este grupo. Consequentemente, um dado de pesquisa revelador indica que 62% dos desigrejados são egressos de denominações neopentecostais , sugerindo um esgotamento da Teologia da Prosperidade.
- Fracasso Pastoral e Relacional: Finalmente, a falha da igreja em prover “acolhimento” genuíno e em lidar de forma redentora com as “mágoas e decepções” dos membros. A estrutura é frequentemente percebida como hierárquica e rígida demais , desumanizando, desse modo, as relações.
2.2. Fatores Exógenos (O Contexto Sociocultural)
As falhas institucionais, contudo, ocorrem dentro de um contexto cultural que as potencializa:
- Modernidade Líquida e Individualismo: Por um lado, o fenômeno alinha-se com análises sociológicas da “Modernidade Líquida” e é influenciado pelo “individualismo crescente” e pela “sociedade de consumo”. Assim, a autoridade institucional é inerentemente questionada, e a religião passa a ser vivenciada de forma mais subjetiva, pessoal e customizada.
- A Busca por Autenticidade e Autonomia: Por outro lado, o movimento reflete uma busca por uma “espiritualidade mais pessoal e autêntica” , onde o indivíduo se torna o principal curador de sua própria jornada de fé, agora livre das mediações institucionais. Há, portanto, uma valorização da “autonomia individual na busca espiritual”.
A confluência desses fatores é, indubitavelmente, explosiva. O desigrejamento pode ser interpretado como um sintoma da falha da igreja institucional em sua transição para a pós-modernidade. Com efeito, a estrutura eclesiástica, historicamente “moderna” (hierárquica, centralizada, baseada em regras), falha em dialogar com o sujeito “pós-moderno” (autônomo, cético em relação a grandes narrativas e exigente de autenticidade).
As lideranças e as estruturas são, então, percebidas como opacas ou corruptas. O resultado é um choque cultural onde o indivíduo, agora empoderado pela tecnologia, abandona a estrutura sem, contudo, abandonar a fé.
O Êxodo da Fé
Notavelmente, este êxodo não parece ser, para a maioria, um caminho sem volta. Por exemplo, uma pesquisa (citando Campos Junior, 2014) revelou que 63% dos desigrejados “declararam que voltariam a se vincular a uma comunidade que não apresentasse os vícios e malversações que os afastaram da comunhão”.
Da mesma forma, estudos subsequentes ecoam a ideia de que a “reaproximação eclesial” é provável se encontrarem uma “antítese” do que viveram. Isso, por conseguinte, redefine o fenômeno: para muitos, não se trata de um “niilismo eclesiástico” completo, mas sim de um êxodo de protesto.
Em suma, é uma “greve” contra um sistema percebido como falho, indicando que o movimento é, em grande parte, reversível e funciona como um poderoso, ainda que doloroso, mecanismo de feedback para a reforma institucional.

Seção 3: A Justificação Teológica da Autonomia: A Crítica à “Igreja-Instituição”
3.1. A Desacralização do Templo Físico
Um dos principais argumentos teológicos do movimento é, sem dúvida, a reinterpretação do conceito de “templo”. Baseando-se em passagens bíblicas do Antigo Testamento (como 1 Reis 8:27 e 2 Crônicas 6:18), eles argumentam, por exemplo, que “Deus não habita em uma casa feita por mãos humanas”.
Nessa visão, portanto, o local físico (o templo, a catedral, o prédio da igreja) é visto apenas como uma “alusão a uma realidade invisível” e não possui significado em si mesmo. Isso, consequentemente, se traduz em uma “repulsa a templos destinados exclusivamente a religião” , vistos como resquícios de uma religiosidade que Jesus teria vindo superar.
3.2. A Primazia da “Igreja-Organismo” sobre a “Igreja-Organização”
Os desigrejados, ademais, frequentemente defendem a tese de que “Cristo não deixou qualquer forma de igreja organizada e institucional”. Eles argumentam que a igreja primitiva foi rapidamente corrompida, já nos primeiros séculos, transformando-se, assim, de um movimento espiritual em uma “instituição”.
Segundo essa crítica, essa institucionalização criou “estruturas”, “ofícios” (para substituir os carismas) e “hierarquias” (para proteger a própria instituição), que, no fim, acabaram “deixando Deus de fora”. A verdadeira “igreja”, para eles, é o “corpo de Cristo” , ou seja, um organismo vivo e invisível , em oposição à “igreja visível ou atuante” (a denominação local).
O que se observa, primordialmente, é um movimento profundamente protestante em sua essência. O evangelicalismo, como se sabe, baseia sua autoridade no princípio do Sola Scriptura (somente a Escritura). Surpreendentemente, os desigrejados utilizam precisely esta ferramenta hermenêutica evangélica contra a própria instituição evangélica.
Eles leem a Bíblia para julgar a tradição (neste caso, a tradição institucional evangélica). Desse modo, ao concluírem que as estruturas de poder, as hierarquias formais e os templos físicos não encontram respaldo bíblico direto (ou foram corrompidos), eles as rejeitam. É, em suma, um paradoxo onde o movimento é um produto da própria teologia que as igrejas que eles abandonam lhes ensinaram.

3.3. Niilismo Eclesiástico: A Crítica à Institucionalização
Em sua forma mais radical, essa crítica é descrita por alguns analistas como “Niilismo Eclesiástico”. Esta visão crítica, naturalmente, se opõe à própria ideia de institucionalização da fé. Ela se posiciona radicalmente contra qualquer forma de nomenclatura (placas de igreja), qualquer liderança eclesiástica formal (pastores, bispos) e, igualmente, contra qualquer forma de contribuição monetária institucionalizada (dízimos, coletas). A busca é, portanto, por um cristianismo “puro”, pré-constantiniano, que, segundo essa visão, foi irrevogavelmente corrompido pela organização humana.
Seção 4: A Práxis da Fé Desvinculada: Espiritualidade, Comunidade e Tecnologia
Ao rejeitar a estrutura institucional, os desigrejados, por conseguinte, reconfiguram sua prática religiosa (práxis) em torno da autonomia individual, da tecnologia digital e, também, de novos formatos comunitários.
4.1. A Reconfiguração da Espiritualidade: A Autonomia Pessoal
Dessa forma, a prática da fé torna-se autônoma e centrada na “subjetividade” do indivíduo. A busca é, antes de mais nada, por uma espiritualidade “autêntica”. Na prática, isso se manifesta primariamente através da leitura bíblica pessoal e da oração individual, eliminando, assim, a mediação pastoral ou institucional.
Além disso, a internet desempenha um papel crucial ao permitir que o indivíduo “consuma” o “produto religioso” de forma seletiva. Com efeito, é possível ter acesso a “bons sermões” e “boas músicas” em casa, muitas vezes com qualidade superior à da congregação local.
4.2. A Congregação Digital: A Infraestrutura Tecnológica do Movimento
A tecnologia é, inegavelmente, o que torna o fenômeno desigrejado viável em larga escala no século XXI. A pandemia de COVID-19, por exemplo, acelerou massivamente essa tendência. Uma pesquisa da Lifeway Research nos EUA, um fenômeno também observado no Brasil, mostrou que milhões de “sem igreja” (desigrejados) passaram a assistir a cultos online durante o período de isolamento.
Contudo, a tecnologia evoluiu de uma mera ferramenta de distribuição de conteúdo (assistir a sermões) para se tornar a própria ekklesia (a assembleia). As redes sociais e fóruns online, por exemplo, funcionam como plataformas de mobilização, debate e defesa apologética das posições desigrejadas.
Mais do que isso, surgem comunidades online que oferecem suporte e “pequenos grupos” digitais para pessoas que processam suas “feridas infligidas por sua experiência com uma igreja institucional”.
O líder midiático, que muitas vezes é também um desigrejado ou crítico da instituição, assume, então, o papel do pastor , e o feed de mídia social torna-se o novo púlpito. Para este grupo, em suma, a tecnologia começa a substituir as funções de comunidade e pastoreio, tornando a instituição física funcionalmente redundante.
4.3. Novos Formatos Comunitários: A Igreja nos Lares
Apesar da ênfase no individualismo, muitos desigrejados, ainda assim, reconhecem a necessidade de comunidade e buscam formas alternativas de congregação. A solução mais comum é, consequentemente, a formação de “pequenos grupos informais” ou congregações domésticas.
Um exemplo notável descreve um grupo que se reúne em casas “sem CNPJ, sem pastor presidente, sem diáconos”, praticando a fé apenas com a “Bíblia e amor ao necessitado”.
No entanto, é fundamental distinguir este modelo da “igreja doméstica” no contexto católico. Para o catolicismo, a “igreja doméstica” é a família que reza unida, mas que permanece vital e intrinsecamente ligada à paróquia, aos sacramentos e à estrutura eclesial. O grupo doméstico desigrejado, por definição, é o oposto: ele é, na verdade, uma estrutura substitutiva que se define precisamente por sua desvinculação da hierarquia e da instituição formal.
Seção 5: Panorama Quantitativo e a Reação Teológica Institucional
5.1. O Desafio de Quantificar os “Desigrejados”
Dimensionar o fenômeno dos desigrejados no Brasil é, primeiramente, um desafio estatístico, pois não existe uma categoria censitária específica para eles. Os dados são, portanto, inferidos a partir de categorias correlatas.
O Censo de 2010 (IBGE) é a principal fonte, apesar de, obviamente, estar defasada. Como mencionado anteriormente, ele registrou 8% da população como “sem religião” e um grupo significativo de “evangélicos não determinados” ou “sem vínculo”. Além disso, um trabalho de 2021 (Guimarães) sugere que o número de evangélicos desigrejados, que preferem vivenciar a fé sem declarar pertencimento denominacional, poderia ultrapassar os 9 milhões já em 2010.
Outro estudo (Campos Junior, 2014), por sua vez, oferece números mais específicos, estimando em 4 milhões o número de brasileiros que se declaravam evangélicos, mas não possuíam vinculação eclesiástica, o que representaria, assim, cerca de 10% de todos os evangélicos à época.
5.2. Perfil Sociodemográfico e Motivacional (Dados de Pesquisa)
O estudo de 2014, citado em , fornece o perfil mais detalhado do desigrejado no Brasil:
- Origem Denominacional: Primeiramente, 62% dos desigrejados são egressos de denominações neopentecostais.
- Motivação Central: Afastaram-se, principalmente, devido a “vícios e malversações” percebidos nas instituições.
- Tempo de Fé: Além disso, possuem, em média, 5,6 anos de conversão, indicando que não são novos convertidos, mas sim pessoas com vivência eclesiástica suficiente para se decepcionarem.
- Potencial de Retorno: Finalmente, 63% afirmam que voltariam a se vincular a uma comunidade, desde que esta não apresentasse os problemas que os levaram a sair.
Tabela 2: Perfil Quantitativo e Motivacional do Fenômeno Desigrejado no Brasil
| Métrica | Dados (Est. 2014) |
|---|---|
| Número estimado | 4 milhões |
| Percentual de Evangélicos (na época) | 10% |
| Principal Origem Denominacional | Neopentecostalismo |
| % de Egressos Neopentecostais | 62% |
| % Dispostos a Retornar (a uma igreja reformada) | 63% |
| Tempo Médio de Conversão | 5,6 anos |
5.3. A Crítica Teológica Institucional ao Desigrejamento
A reação das igrejas institucionais ao fenômeno é, naturalmente, robusta, baseando-se em argumentos eclesiológicos (sobre a natureza da igreja) e soteriológicos (sobre a salvação e santificação) para defender a indispensabilidade da congregação local.
- Argumento Eclesiológico (O Corpo de Cristo): De início, a principal crítica é que uma fé individualista é biblicamente incompleta. A metáfora central do Novo Testamento (1 Coríntios 12) é a da igreja como “corpo de Cristo”. O argumento, portanto, é que não se pode ser um “membro do corpo” (um braço, um olho) sozinho, isolado. A adoração comunitária é vista, assim, como a expressão essencial da fé cristã.
- Argumento da Santificação: Ademais, a teologia institucional defende que o aperfeiçoamento e a santificação do crente ocorrem na comunidade, através do que um teólogo chama de “sofrimento redentor” da comunhão – ou seja, o processo de lidar com as falhas dos outros e ter as próprias falhas expostas. Abandonar a igreja é, portanto, abandonar o principal meio de crescimento espiritual.
- Argumento Bíblico (O Mandato de Congregar): Igualmente, líderes institucionais apontam para mandatos bíblicos diretos, especialmente a exortação em Hebreus 10:25, para “não deixar de congregar”. A própria promessa de Cristo (“onde estiverem dois ou três reunidos em meu nome…”) é usada para reforçar a necessidade da reunião física e local.
- A Crítica Radical: Por fim, em sua forma mais dura, alguns líderes questionam a própria validade da fé dos desigrejados, sugerindo que aqueles que “atacam a igreja de Jesus” por causa de uma decepção “num ambiente mal preparado” talvez não sejam “irmãos de verdade”. Outros, de forma mais pastoral, alertam que o desigrejamento é um “vôo solo” perigoso, onde o indivíduo, na tentativa de se livrar dos problemas (a “água suja da banheira”), acaba “jogando fora o bebê junto” (a própria fé comunitária).
Seção 6: Impactos, Desafios e Futuro da Fé Pós-Institucional
6.1. O Impacto nas Igrejas Institucionais: Desafio e Oportunidade
O cenário religioso brasileiro, curiosamente, apresenta um aparente paradoxo: o crescimento simultâneo de templos evangélicos e o aumento do número de desigrejados. Isso não é uma contradição, mas sim duas faces de um mesmo mercado religioso: dinâmico, em expansão, mas, ao mesmo tempo, extremamente volátil e com alta rotatividade.
O fenômeno desigrejado representa, sem dúvida, um desafio direto à autoridade e relevância das igrejas , que perdem membros, recursos e legitimidade. Contudo, ele também representa uma oportunidade. Na verdade, o principal desafio para as igrejas existentes é “a quebra de estereótipos e o desenvolvimento de uma práxis baseada no acolhimento e no evangelho de Jesus Cristo”.
6.2. Respostas Eclesiais: Entre a Condenação e o Diálogo
Por conseguinte, as instituições são forçadas a refletir sobre “as causas e das consequências da incoerência na prática da conduta ética-cristã nas lideranças” como medida primária para evitar o desigrejamento.
As respostas, como esperado, variam da condenação ao diálogo. Alguns teólogos, por exemplo, adotam uma abordagem pastoral, pedindo que a igreja ame os desigrejados. Maurício Zágari, por exemplo, argumenta que, embora os desigrejados possam estar “equivocados” em sua decisão (pois a desigrejação não cura as feridas), eles, ainda assim, continuam sendo “irmãos” e não “inimigos”. O diálogo e o amor são vistos, desse modo, como o único caminho para a reaproximação.
6.3. Tendências Futuras: A Solidificação da Espiritualidade Pós-Institucional
Analistas antropológicos preveem que o movimento dos “sem igrejas” é factual e, além disso, “provavelmente o movimento social religioso que mais crescerá” no Brasil. O futuro do cristianismo evangélico no país não será, portanto, o fim da igreja, mas sim uma reconfiguração profunda, definida por uma tensão dinâmica entre a “instituição” e o “movimento”.
O fenômeno do desigrejamento, assim, funcionará como um corretivo permanente, uma espécie de “lobby” externo que força as instituições a se reformarem. Consequentemente, as igrejas que se adaptarem, focando em autenticidade, transparência e “acolhimento” , sobreviverão e poderão reabsorver a parcela significativa de desigrejados (os 63% ) que busca um retorno condicional. Por outro lado, as instituições que permanecerem rígidas, legalistas e focadas em estruturas de poder , continuarão a “produzir” desigrejados, alimentando, desse modo, o movimento pós-institucional.
Desta forma, o fenômeno desigrejado não é apenas o fim da jornada de fé para muitos; é, paradoxalmente, o motor da próxima e inevitável evolução da igreja institucional no Brasil.
Seção 7: Análise Conclusiva
7.1. Síntese Analítica
Este relatório, em primeiro lugar, analisou o fenômeno dos “desigrejados”, definindo-os não como “sem religião”, mas sim como crentes, tipicamente evangélicos, que mantêm a fé em Cristo e na Bíblia, mas, contudo, rejeitam ativamente a filiação a qualquer igreja institucional.
As causas para este êxodo são, primordialmente, reativas : ou seja, uma resposta a falhas institucionais graves, incluindo abusos de liderança , escândalos , legalismo e a ênfase na Teologia da Prosperidade (especialmente para os 62% de egressos do neopentecostalismo). Além disso, este descontentamento é potencializado por um contexto cultural de individualismo e viabilizado por novas tecnologias, que oferecem uma “congregação digital” alternativa.
A prática da fé, por sua vez, torna-se autônoma , digital e, por vezes, se reorganiza em microcomunidades informais, como igrejas domésticas desvinculadas. Este movimento, todavia, gera uma tensão teológica, utilizando a hermenêutica evangélica (Sola Scriptura) contra a própria estrutura evangélica , ao mesmo tempo em que é criticado pela teologia institucional por violar o mandato bíblico da comunhão.
Finalmente, a análise dos dados sugere que o fenômeno é, em grande parte, um protesto reversível (63% consideram voltar ), funcionando, assim, como um poderoso chamado à reforma institucional.
7.2. Contribuição do Estudo e Diretrizes para Pesquisas Futuras
Este relatório, inegavelmente, consolida o fenômeno desigrejado como um objeto sociológico distinto, de alta relevância para a compreensão do futuro do cristianismo no Brasil.
Contudo, existem lacunas significativas. Por exemplo, a maioria dos dados quantitativos (como os 4 milhões ) é baseada em projeções e dados do Censo de 2010. Além do mais, a pandemia de COVID-19 foi um acelerador indiscutível do consumo religioso digital e da desvinculação física.
Portanto, novas pesquisas etnográficas e quantitativas pós-pandêmicas são urgentes para:
- Mensurar com precisão o crescimento do fenômeno após 2020.
- Analisar o perfil e a influência dos “líderes midiáticos” que dão forma e coesão a este movimento digital.
- Realizar estudos longitudinais para verificar se os 63% que “pretendem voltar” de fato retornam às instituições reformadas, ou se, ao contrário, a espiritualidade autônoma e a “ekklesia digital” estão se solidificando como uma identidade permanente e um destino final.

