Se Deus sabe tudo, por que Ele se arrepende (Gênesis 6:6)?
Se Deus sabe tudo, por que Ele se arrepende (Gênesis 6:6)? Esta questão desafia estudantes da Bíblia há séculos e frequentemente surge como um argumento usado por céticos para apontar uma suposta contradição nas Escrituras. A passagem afirma: “Então se arrependeu o Senhor de ter feito o homem na terra, e isso lhe pesou no coração”.
À primeira vista, o texto sugere que Deus cometeu um erro, percebeu a falha e desejou voltar atrás, o que anularia Sua onisciência (saber de todas as coisas). Contudo, uma análise teológica e linguística mais profunda revela que não existe contradição, mas sim uma revelação profunda sobre o caráter emocional e justo do Criador.
Para compreendermos verdadeiramente este versículo, precisamos abandonar a nossa definição moderna e limitada de “arrependimento” e olhar para o contexto original. Deus não muda, mas a humanidade mudou drasticamente desde a Criação até o Dilúvio. A Bíblia utiliza uma linguagem específica para descrever a reação de um Deus Santo diante da maldade humana extrema. Portanto, entender Gênesis 6:6 exige que investiguemos a natureza de Deus, a linguagem hebraica e o relacionamento dinâmico entre o céu e a terra.
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O significado profundo de “Nacham”
O primeiro passo para resolver este aparente paradoxo envolve o estudo da palavra original. No hebraico, o termo traduzido como “arrepender-se” em Gênesis 6:6 é “Nacham”. Diferente do conceito humano de arrependimento, que geralmente envolve o reconhecimento de um erro, pecado ou falha de cálculo, Nacham carrega uma conotação emocional muito mais densa.
Este termo significa suspirar profundamente, sentir pena, consolar-se ou lamentar. Ele descreve uma dor profunda ou uma mudança de disposição emocional em relação a uma situação.
Consequentemente, quando a Bíblia diz que Deus se “arrependeu”, o texto comunica que Deus sentiu uma tristeza profunda e dolorosa. Ele não descobriu algo novo que O surpreendeu. Pelo contrário, a realidade do pecado humano pesou sobre Ele.
Deus, que é plenamente santo, sentiu a dor da rebelião de Suas criaturas. Assim, o versículo não descreve uma falha intelectual na presciência divina, mas uma resposta emocional e justa à perversidade do homem. Você pode aprofundar seu conhecimento sobre o contexto histórico lendo sobre quem foi Noé, o homem que achou graça diante de Deus neste período.
Antropopatismo: Deus falando nossa língua
Além da linguística, precisamos considerar a figura de linguagem que a Bíblia utiliza constantemente. Teólogos chamam isso de antropopatismo (atribuição de sentimentos humanos a Deus) ou antropomorfismo (atribuição de formas humanas a Deus). Como seres finitos, nós não possuímos a capacidade de compreender a mente infinita de Deus em sua totalidade. Por isso, as Escrituras explicam as ações divinas usando termos que nós compreendemos.
- Acomodação Divina: Deus desce ao nosso nível de linguagem para revelar Seu coração.
- Expressão de Relacionamento: Se a Bíblia descrevesse Deus apenas em termos metafísicos absolutos, Ele pareceria uma força impessoal, não um Pai.
- Realidade da Reação: O termo “arrependimento” comunica de forma eficaz a mudança na atitude de Deus: de Criador abençoador para Juiz necessário.
Dessa forma, Moisés, o autor do Gênesis, registrou a história de modo que compreendêssemos a gravidade do pecado. Se o texto dissesse apenas “Deus decidiu destruir a terra”, perderíamos a revelação do amor ferido de Deus. Para entender melhor como interpretar essas passagens, recomendamos a leitura sobre como entender a Bíblia corretamente.
A imutabilidade de Deus e a mudança humana
Outro ponto fundamental reside na doutrina da imutabilidade de Deus. A Bíblia afirma em Números 23:19 que “Deus não é homem, para que minta; nem filho do homem, para que se arrependa”. Parece uma contradição direta com Gênesis 6:6, mas não é. Em Números, o texto fala sobre o caráter, as promessas e os propósitos finais de Deus. Nestes aspectos, Ele jamais muda. Em Gênesis, o texto refere-se ao tratamento de Deus para com o homem que mudou de comportamento.
Imagine um pai que promete levar o filho ao parque se ele se comportar, mas promete discipliná-lo se ele desobedecer. O pai é constante em sua palavra. Se o filho desobedece, a atitude do pai muda de “recompensa” para “disciplina”. O pai mudou? Não.
O filho mudou, e a constância do caráter justo do pai exigiu uma mudança de ação. Da mesma forma, a humanidade na época de Noé corrompeu-se totalmente. A mudança de Deus (o “arrependimento”) foi, na verdade, a prova de Sua fidelidade à Sua própria santidade. Para ver mais sobre a fidelidade divina em meio ao julgamento, veja a história da Arca de Noé resumida.
A dor divina diante do pecado
Finalmente, precisamos encarar o aspecto da onisciência. Se Deus sabia que o homem pecaria, por que Ele o criou para depois “se arrepender”? Deus sabia, desde a eternidade, que o homem cairia. Ele também sabia que enviaria Jesus para redimir a humanidade. O conhecimento prévio do sofrimento não anula a dor de vivenciá-lo. Deus escolheu criar seres com livre-arbítrio capazes de amar, mesmo sabendo o preço doloroso que isso custaria a Ele mesmo na cruz.
O “arrependimento” de Deus reflete o custo do amor. Ele não é um observador estoico e indiferente. O mal e o sofrimento O afetam. Gênesis 6:6 revela que o pecado parte o coração de Deus. Ele preferiu suportar a dor da traição humana e a dor de trazer juízo, para que, através da linhagem de Noé, pudesse salvar a humanidade futuramente. Isso nos leva a refletir sobre questões profundas, como por que Deus permite o sofrimento e o mal no mundo.
Portanto, Deus “se arrepende” não porque aprendeu algo novo ou errou no projeto, mas porque Ele reage dinamicamente dentro do tempo e da história às escolhas humanas, mantendo-se fiel à Sua natureza justa e amorosa. Ele sentiu pesar, mas também proveu um caminho de salvação, demonstrando seus atributos descritos em nomes de Deus.
Conclusão
Em suma, a afirmação de que Deus se arrependeu em Gênesis 6:6 não diminui Sua divindade nem contradiz Sua onisciência. Pelo contrário, ela magnifica Sua santidade e Sua capacidade de se relacionar com a criação. O termo hebraico Nacham expressa uma dor profunda e uma mudança de disposição governamental diante da maldade humana, não um erro de planejamento.
Deus permanece imutável em Seu ser, mas altera Suas ações conforme a resposta humana para manter Sua justiça. Entender isso remove a confusão intelectual e nos convida a adorar um Deus que, embora saiba de tudo, ainda se importa profundamente conosco. Se você deseja aprofundar-se mais nos mistérios do início de tudo, leia também sobre Gênesis 1 explicado.
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